O lado B de James Rhodes: Instrumental

Por Jaci Pandora, do Recife
Imagem: rollingstone.com.co


Quando decidi ler "Instrumental" me disseram 10 vezes: "Jaci, esse livro é pesado.". Realmente, não vou enganar ninguém, o livro não é só sincero, pungente, esperançoso, entusiasmado e emocionante, ele também é pesado. E enquanto escrevo esta resenha escuto "Bach-Busone, Chacona" interpretada pelo James Rhodes e me pego chorando em silêncio sobre o peso dessa história todas as lagrimas que não chorei enquanto lia o livro.

Em "Instrumental" Rhodes nos conta sua história de uma forma muito forte, sem cortar as piores partes dela, sem omitir suas dores, erros, pecados e vícios. Ele abre seu coração sem o minimo pudor e nos conta o lado B de sua história, de sua personalidade de sua forma de lidar com a vida. Nos informa com muita sinceridade sobre a crueldade do estrupo que sofreu durante sua infância e de como isso destruiu profundamente a curto, médio e longo prazo as melhores coisas de sua vida.

Não há espaço para hipocrisia no relato de Rhodes, ele conta tudo, de como ser vitima de um monstro durantes vários anos transformou ele de um menino plenamente feliz em uma criança introspectiva e infeliz e afetou das piores formas possíveis sua vida adulta. Ter sido continuamente estuprado durante vários anos de sua infância foi determinante para torna-lo uma criatura autodestrutiva, volátil, com transtorno pós-traumático, tendência ao suicídio, automutilação e milhares de coisas mais.

"Instrumental" funciona como uma Caixa de Pandora na qual você vai encontrar os demônios do artista, mas não é só isso. Rhodes também nos conta como consegui sobreviver as suas dores, eles nos oferece um relato de amor desesperado, puro e pulsando a música clássica. Se por um lado é destruidor ler sobre seus abusos e as consequências, é lindo ler sobre as opiniões de James sobre a música. A força com a qual ele ama a música clássica nos impulsionar a amar também. Ele nos instrui, nos toca, nos motiva a ouvir Bach, Beethoven, Ravel, Chopin, Morzat, Richmaninoff.

No inicio de cada capitulo de sua história ele nos apresenta uma peça de alguns dos mais celebres instrumentistas da história da humanidade e nos fala do contexto da produção daquela música e a história do autor. Da mesma forma que me sinto intima de meus autores favoritos, ele se sente intimo de seus músicos e falando deles com tanta paixão me fez pela primeira vez na vida me sentir próxima dos grandes músicos e perceber o quanto eles eram humanos, frágeis, genias e tocantes.


James Rhodes diz que Bach salvou a vida dele, ouvindo pela terceira vez consecutiva a Chacona enquanto escrevo essa resenha consigo entender o porquê. De repente compreendo o quanto a música clássica é uma das coisas mais lindas já produzidas por nossa especie e me sinto infinitamente agradecida a esse homem por sua coragem de me mostrar isso de uma forma tão sincera. Não tem como não indicar a leitura desse livro, não tem como não amar.

Obrigada a Rádio Londres por ter me proporcionado essa leitura nessa edição tão linda a qual respeita tanto a beleza do livro. É uma delícia ter uma obra cuja capa dialoga tão lindamente com o texto contido no livro.


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