Meus Documentos: a 4ª obra do Zambra publicada no Brasil


Quando vi nas redes sociais que a Cosac Naify iria lançar no Brasil mais um livro do Alejandro Zambra, eu quase cai da cadeira, acabei comprando logo na pré-venda, tamanha emoção de ter em mão a mais nova obra de um dos meus autores contemporâneos favoritos. Meus Documentos é o quarto livro lançado no Brasil do escritor chileno, e  trata-se de uma coletânea de contos que giram em torno de situações cotidianas, e que em nada ficou devendo às outras obras do autor.
Quem já leu Bonsai (resenha aqui), A Vida Privada das Árvores (aqui), e Formas de Voltar para Casa (aqui), sentirá ao ler Meus Documentos que todos os elementos característicos presentes e marcantes na narrativa de Zambra estão novamente encontrados nessa obra. A tradução ficou por conta de Miguel del Castillo.


Este livro é dividido em três partes, onde somam-se 11 contos. O sentimento que tive ao ler Meus Documentos foi o mesmo que tive ao ler as outras obras do Zambra: de que todos são livros confessionais. As características presentes nos personagens que o autor cria, são sempre muito semelhantes: são homens, professores (seja de literatura, ou história, educação física, etc) que relatam problemas ou situações relembrando sua infância e vida adulta, parecem ser infelizes, ou não realizados, são divorciados, fumantes de cigarros e maconha, e envolvem-se em aventuras sexuais pouco duradouras, etc, contudo ao invés de cair no mesmismo, Zambra se mostra surpreendente! O nível de intimidade a que somos mergulhados na leitura nos faz realmente pensar que Zambra fala de si mesmo... mas talvez não seja... ou seja... No livro, Zambra repete a formula de seu sucesso: histórias curtas, de poucas palavras, e sem muitos "arrudeios"; ele apresenta a situação, e ponto, e é aí que vem outra característica repetidas nessa obra, que é a maneira com que o autor termina seus contos - geralmente meio que abertos -  onde nossa mente continua a história imediatamente após o ponto final. Isso é fantástico!


Entre os contos apresentados exitem os que se destacam. Gostei muito de "Lembranças de um Computador Pessoal", onde conhecemos Max e Cláudia. Nesse conto, em que o relato quase parece um diário, o chileno conta diversas situações cotidianas e aventuras sexuais, onde em algum momento o computador estava presente; também gostei de "Vida de Família", onde acompanhamos o Martín, um homem divorciado e sem muitas perspectivas que se muda para a casa grande de um primo de segundo grau, que irá passar 4 meses na Europa. Martin precisa cuidar da casa e do gato da família. Em algum momento, conhece Paz, mãe solteira, com quem nutre um relacionamento, passando-se por proprietário da residência; outro destaque no livro é o sombrio - e talvez o mais diferente que já li do autor - "Tente Lembrar", e cujos detalhes vou deixar que você conheça por totalidade ao ler Meus Documentos.


Outro elemento sempre presente nas histórias de Zambra é o sexo. Praticamente em todos os livros e contos do autor, há sexo, mas não são, em sua maioria, detalhados,  na verdade Zambra não costuma explicar exaustivamente as situações em que põe seus personagens, ele simplesmente diz o que aconteceu e pronto,  o restante é conosco.
A presença do fantasma de Pinocchet e da ditadura chilena é foco em alguns desses contos. Zambra apesenta dessa forma a história de uma forma que alguns críticos chamam de autoficção.


Apesar de, como eu disse a inicio, Zambra repetir a sua formula de sucesso, em momento nenhum o livro deixa a desejar, não nos sentimos como : "ah, parece que já li isso" muito pelo contrário, sentimos-nos familiarizados com os personagens logo de cara, e as 222 páginas são consumidas sem que percebamos.
Falando da edição, a Cosac manteve a identidade visual dos outros livros do autor, com um tom pastel de azul, e uma textura, inclusive com as  abas da capa grandes, e estampadas por dentro, Um livro bonito de ter na estante, e que além de valer a pena por seu conteúdo, vale a pena pela qualidade do material utilizado.


Ao terminar Meus Documentos, completei a leitura de todos os livros lançados em português do autor. Foi impossível não sentir-me órfão... pensei: "Oh God! O que vou ler do Zambra agora? Será que vai sair logo algo novo dele?" Foi aí que descobri que ainda existe outro livro que ainda não foi traduzido, trata-se de Facsímil (2014) e que já me deixou ansioso para que chegue a nosso país.

Abraço Forte!








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